Num átimo reverberado de remanso e de sabotagem
Um bêbedo anônimo oscilado no abismo da calçada
Uma amante sem alforria, automática e despudorada
Uma mulher de alegoria, vigilante no cárcere do lar
A ave notívaga de um poema branco pairando a vagar
Música sem melodia num ébrio silêncio em sinfonia.
Ó Noite... Esparja a seiva do entusiasmo e da ruína
Na cobiça feroz daqueles de essência ou de ausência
Gotas de confusão na boca do arlequim abandonado
Fluxo e refluxo na alienação das gerações estúpidas
Gravuras mortas na poeira infecciosa dos cigarros
Corações invisíveis notados por sanfonas embaçadas
Sangrias de pensamentos em copos vazios de almas:
Labirintos que o álcool trilha na memória e na vontade
Vai, Noite... Mata os teus protagonistas apaixonados:
As diáfanas bailarinas cegas do infindável balé surdo
O pierrotesco monstro interior das muralhas de papel
Os visitantes efêmeros acovardados nas oportunidades
As sentinelas dos prazeres e dos sonhos de néon
Alimentadas por uma hora e trinta moedas de aflição
Na fé finita sob a égide colérica de um deus agnóstico.
Vem, Noite... Que eu estou faminto por tua glória
Mata-me!Devora-me! Enlouqueça-me! Ceda-me!
Acena-me com teus múltiplos braços imaginários;
Ofereça-me os teus êxtases e as tuas mandingas;
Arrebata-me com a tua mesquinha mão diabólica
E, com a outra, receba-me no teu catre de delícias;
Abre-me tua campa confortando-me em teus tentáculos;
E lança-me nos atalhos dos perigos da via lastimosa.
OUTONO DE 2002
MAIO
* Jorge Rodrigues *
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