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Não me venhas com democraciaPois isto continua uma hipocrisiaHá ainda uma nota de melancoliaNa guitarra do roqueiro da alegria.Falta nos jovens dos velhos a rebeldia.Seque o seu marasmo bebendo nostalgiaDaqueles tempos que sobrava grosseriaDa polícia: prisão e sem dó pancadaria.Não me venhas com dramaturgiaHá tempos que só temos picardiaE dos atores só resta a poligamia:Salve os áureos tempos da polissemia.E olhe só que tamanha a galhardia!...Putas e deputados fodendo o seu dia-a-diaE você ai com sua comiseração de bom-dia.Acorda! Levanta! Os mortos merecem utopia.11/02/2007* Jorge Rodrigues *
Ó Noite... Reprisa todas as tuas cenas e personagensNum átimo reverberado de remanso e de sabotagemUm bêbedo anônimo oscilado no abismo da calçadaUma amante sem alforria, automática e despudoradaUma mulher de alegoria, vigilante no cárcere do larA ave notívaga de um poema branco pairando a vagarMúsica sem melodia num ébrio silêncio em sinfonia. Ó Noite... Esparja a seiva do entusiasmo e da ruínaNa cobiça feroz daqueles de essência ou de ausênciaGotas de confusão na boca do arlequim abandonadoFluxo e refluxo na alienação das gerações estúpidasGravuras mortas na poeira infecciosa dos cigarrosCorações invisíveis notados por sanfonas embaçadasSangrias de pensamentos em copos vazios de almas:Labirintos que o álcool trilha na memória e na vontade Vai, Noite... Mata os teus protagonistas apaixonados:As diáfanas bailarinas cegas do infindável balé surdoO pierrotesco monstro interior das muralhas de papelOs visitantes efêmeros acovardados nas oportunidadesAs sentinelas dos prazeres e dos sonhos de néonAlimentadas por uma hora e trinta moedas de afliçãoNa fé finita sob a égide colérica de um deus agnóstico. Vem, Noite... Que eu estou faminto por tua glóriaMata-me!Devora-me! Enlouqueça-me! Ceda-me!Acena-me com teus múltiplos braços imaginários;Ofereça-me os teus êxtases e as tuas mandingas;Arrebata-me com a tua mesquinha mão diabólicaE, com a outra, receba-me no teu catre de delícias;Abre-me tua campa confortando-me em teus tentáculos;E lança-me nos atalhos dos perigos da via lastimosa. OUTONO DE 2002MAIO * Jorge Rodrigues *
Pareceu que foi um vendavaldaqueles que não fazem anúncio de chegadae atiram a pedra no seu abraçoe riscam a pedra sem deixar traço.Entendeu que foi o vendaval...que parou a noite no meio da luae aprisionou a pedra em seu laçoe estilhaçou a pedra naquele lapso. Pereceu então a inerte miúdano ronco rouco do turbilhãoa consumir o enigma que medradois elementos na esfera miúda,engolindo o tempo de satisfação:cedo o vendaval, tardia a pedra.21/01/2007* Jorge Rodrigues *
Raros e preciosos os momentos de ontemonde a fantasia virtual de simples alegoriasurgiu livre, intensa por desejos de alforriainstável, de imediato, constante na alegria.Lembranças de ontem serão como a vagaeternamente no frouxo ir e vir sobre a areianamoro idílico em um ritual sem desleixoeclipse apaixonado no refluxo após o beijo.
INVERNO DE 2001JULHO
* Jorge Rodrigues *
Costumam negar as coincidências, disfarçar as evidências;
adorar o efêmero, que é tão rápido e fácil;
relegar o infindo, que é tão assaz lento e complicado.
Idilicamente, só o que é complicado sobrevive.
Nada instantâneo serve: mero valor imediato.
A constância é que nos torna eficazes no amor! PRIMAVERA DE 2000SETEMBRO * Jorge Rodrigues *
Sonhos são feitos de pequenos instantes de realidade, embora, às vezes, as palavras possam distorcê-los e nos tornar indelicados, ainda que não seja essa a intenção. Um rosto caiu em meus pensamentosE mil palavras se ergueram dentro deles;Sem saber que morreriam nos lábiosAnte a presença do olhar daquele rosto... Um coração então mergulhou em desesperoE a solidão atravessou-o com uma flecha,Superando qualquer forma idílica de dor,Mesmo tendo a esperança por companheira. Como o coração, a alma também padeceE a voz, em sussurro, se perde em devaneio:A voz do rosto lhe inunda os ouvidos...O perfume do corpo lhe invade os sentidos... Adormecido o sofrimento, o sonho sereno chegaE, sem temores, os lábios revelamCoisas que os olhos não podem ocultarMas que tentam, sem sucesso, disfarçar! PRIMAVERA DE 1997NOVEMBRO * Jorge Rodrigues *
Ah! Deus! Fala comigo!Me entorpece o sentido!Me dá um abrigo!... Ah! Deus! Me dá um amigo! Me cede o ouvido!Fica aqui comigo!... Deus?!... Ah! Deus!Adeus! 12/02/2007 * Jorge Rodrigues *