segunda-feira, 21 de maio de 2007

DÊ-NOS CRACIA

Não me venhas com democracia
Pois isto continua uma hipocrisia
Há ainda uma nota de melancolia
Na guitarra do roqueiro da alegria.

Falta nos jovens dos velhos a rebeldia.
Seque o seu marasmo bebendo nostalgia
Daqueles tempos que sobrava grosseria
Da polícia: prisão e sem dó pancadaria.

Não me venhas com dramaturgia
Há tempos que só temos picardia
E dos atores só resta a poligamia:
Salve os áureos tempos da polissemia.

E olhe só que tamanha a galhardia!...
Putas e deputados fodendo o seu dia-a-dia
E você ai com sua comiseração de bom-dia.
Acorda! Levanta! Os mortos merecem utopia.

11/02/2007

* Jorge Rodrigues *

NOITRISTE

Ó Noite... Reprisa todas as tuas cenas e personagens
Num átimo reverberado de remanso e de sabotagem
Um bêbedo anônimo oscilado no abismo da calçada
Uma amante sem alforria, automática e despudorada
Uma mulher de alegoria, vigilante no cárcere do lar
A ave notívaga de um poema branco pairando a vagar
Música sem melodia num ébrio silêncio em sinfonia.

Ó Noite... Esparja a seiva do entusiasmo e da ruína
Na cobiça feroz daqueles de essência ou de ausência
Gotas de confusão na boca do arlequim abandonado
Fluxo e refluxo na alienação das gerações estúpidas
Gravuras mortas na poeira infecciosa dos cigarros
Corações invisíveis notados por sanfonas embaçadas
Sangrias de pensamentos em copos vazios de almas:
Labirintos que o álcool trilha na memória e na vontade

Vai, Noite... Mata os teus protagonistas apaixonados:
As diáfanas bailarinas cegas do infindável balé surdo
O pierrotesco monstro interior das muralhas de papel
Os visitantes efêmeros acovardados nas oportunidades
As sentinelas dos prazeres e dos sonhos de néon
Alimentadas por uma hora e trinta moedas de aflição
Na fé finita sob a égide colérica de um deus agnóstico.

Vem, Noite... Que eu estou faminto por tua glória
Mata-me!Devora-me! Enlouqueça-me! Ceda-me!
Acena-me com teus múltiplos braços imaginários;
Ofereça-me os teus êxtases e as tuas mandingas;
Arrebata-me com a tua mesquinha mão diabólica
E, com a outra, receba-me no teu catre de delícias;
Abre-me tua campa confortando-me em teus tentáculos;
E lança-me nos atalhos dos perigos da via lastimosa.

OUTONO DE 2002
MAIO

* Jorge Rodrigues *

O VENDAVAL E A PEDRA

Pareceu que foi um vendaval
daqueles que não fazem anúncio de chegada
e atiram a pedra no seu abraço
e riscam a pedra sem deixar traço.

Entendeu que foi o vendaval...
que parou a noite no meio da lua
e aprisionou a pedra em seu laço
e estilhaçou a pedra naquele lapso.

Pereceu então a inerte miúda
no ronco rouco do turbilhão
a consumir o enigma que medra

dois elementos na esfera miúda,
engolindo o tempo de satisfação:
cedo o vendaval, tardia a pedra.

21/01/2007

* Jorge Rodrigues *

RITUAL DE AMOR

Raros e preciosos os momentos de ontem
onde a fantasia virtual de simples alegoria
surgiu livre, intensa por desejos de alforria
instável, de imediato, constante na alegria.
Lembranças de ontem serão como a vaga
eternamente no frouxo ir e vir sobre a areia
namoro idílico em um ritual sem desleixo
eclipse apaixonado no refluxo após o beijo.

INVERNO DE 2001

JULHO

* Jorge Rodrigues *

SERENATA DE PALAVRAS

Costumam negar as coincidências, disfarçar as evidências;
adorar o efêmero, que é tão rápido e fácil;
relegar o infindo, que é tão assaz lento e complicado.
Idilicamente, só o que é complicado sobrevive.
Nada instantâneo serve: mero valor imediato.
A constância é que nos torna eficazes no amor!


PRIMAVERA DE 2000
SETEMBRO

* Jorge Rodrigues *

A FONTE

Sonhos são feitos de pequenos instantes de realidade, embora, às vezes, as palavras possam distorcê-los e nos tornar indelicados, ainda que não seja essa a intenção.

Um rosto caiu em meus pensamentos
E mil palavras se ergueram dentro deles;
Sem saber que morreriam nos lábios
Ante a presença do olhar daquele rosto...

Um coração então mergulhou em desespero
E a solidão atravessou-o com uma flecha,
Superando qualquer forma idílica de dor,
Mesmo tendo a esperança por companheira.

Como o coração, a alma também padece
E a voz, em sussurro, se perde em devaneio:
A voz do rosto lhe inunda os ouvidos...
O perfume do corpo lhe invade os sentidos...

Adormecido o sofrimento, o sonho sereno chega
E, sem temores, os lábios revelam
Coisas que os olhos não podem ocultar
Mas que tentam, sem sucesso, disfarçar!

PRIMAVERA DE 1997
NOVEMBRO

* Jorge Rodrigues *

ADEUS!

Ah! Deus! Fala comigo!
Me entorpece o sentido!
Me dá um abrigo!...

Ah! Deus! Me dá um amigo!
Me cede o ouvido!
Fica aqui comigo!...

Deus?!...
Ah! Deus!
Adeus!

12/02/2007

* Jorge Rodrigues *