quinta-feira, 17 de maio de 2007

O FAROL

Deita a noite, sobe o dia
e o farol se ressente
no clarão da melancolia.

Sofre por lembranças,
dorme sem esperanças:
a morte sempre o alcança…

Agora lá onde dorme o vento
a prata já não cobre o mar,
pois é o ouro agora a cantar.

Mas não tarda a alegria
por de novo girar a roda,
que por ser roda, rola:

Deita a noite sobre o dia
e assim renasce o farol
na eterna morte do sol.

17/05/2007

* Jorge Rodrigues *

O SOLDADO E SUA AMADA

Cantarei em versos o furor da batalha, amada
Encurralado entre Deus e uma ponta de espada.
Não serei como Aquiles, serei mortal e voltarei.
Não haverá mouro a impedir a vontade de el-rei!

Tendo Deus por bandeira, dominarei toda a terra,
E semearei fome, miséria, morte, peste e a guerra.
Não serei como Alexandre, aqui eu não perecerei.
Não haverá mouro a impedir a vontade de el-rei!

Esconderei a minha dor sob os pés da minha fé.
Não serei como Ulisses, cedo eu te encontrarei.
Não haverá mordaça para calar o que não revelei!

E, no céu raiado pela aurora que se desmancha,
Atravessado por lanças, teu lamento merecerei.
Não haverá forca a impedir a vontade de el-rei!

15/03/2007

* Jorge Rodrigues *

O OBSERVADOR DO MEIO DA PONTE:

Os carros passam! Não sei nem a marca!
O vento burocrático quer derrubar motos!
E o mar tão calmo!

A fumaça da fábrica de ferro fuzila!
O morro da fé me lembra índios mortos!
E o mar tão doce!

Não tem ferry-boat! Mas o rebocador...
Ainda assim a espuma é admirável branca.
E o mar tão perto!

Oh! Jurema! Que curva me apontas?
No Shopping, ninguém se encontra.
Mas o mar!...

11/02/2007

* Jorge Rodrigues *

MEU MEDO

Quando criança eu era,
tinha medo de Clarice Lispector.
Não da Clarice, mas da Lispector:
minha alma era miúda como eu mesmo.

O tempo passou, Clarice sumiu;
A alma cresceu, Lispector cedeu.
Mas no coração a dor dela não coube
E eu morri, sem saber o que houve...

11/02/2007

* Jorge Rodrigues *

O LABIRINTO

Eu fico pensando... Não consigo parar!...
De certo isto é algo que eu não controlo, ou que não quero controlar...
Há tempos na minha mente que os caminhos eram todos conhecidos.
Em data, não acho pontes nem túneis.
Estou enclausurado num labirinto em mim mesmo,
Uma habilidosa tua construção.

Mas que dizer de ti, Minotauro?
Dedalus desapareceu nas asas de cera e não deixou mapas!...
Mas inconfortavelmente eu não tenho medo...
Sou o mais forte desde Teseu!

07/02/2007

* Jorge Rodrigues *